03/11/09



a sombra irrompeu. passo lento. deslizando no soalho. ao fundo uma vela. obediente. orientava. a intima procissão. a sombra. absorvia o silêncio. adensava o mistério. até ao momento. em que se desmoronou. em contacto com o linho. dentro da sombra. nasceu um corpo. de mulher. e dentro. do corpo. floresceram. luminosos flancos. o animal. mágico. desassossegado. descobriu. por fim. que estava diante. do sereno. milagre do amor.


*



(imagem de steven hanks)




14/10/09




*
(imagem de graça loureiro)

06/10/09



Feliz
Aniversário!!!

Alberto



Beijinho com carinho de uma amiga *

22/09/09




O coração enjaulou a vontade de te amar,
Os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto,
Os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém.
Ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa,
Onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel.
Pouco ou nada me lembro de mim.


Al Berto
(imagem de erlandpil)

20/09/09




corre os cortinados



estavas perto da ilha. sob um céu de Domingo. uma ilha que se avista. por entre flores movediças.

olhas. quando a tarde se apaga. em talha de ventos. o doce ondular. de uma chama azulada.

aguardas. o instante da partida. o teu olhar cinde as nuvens.

a minha sombra. vai ao teu encontro. oiço a tua voz. macia.

e respiro ao longe. o odor da tua pele.

quando planeavas a fuga para a ilha. os meus olhos andavam distraídos.

passeando o ócio pelas longas pálpebras da manhã.

foi nessa atura. que o mar. vergou as pernas. do medo.

e. no clamor de um lenço. branco.

aproximei-me do cais. o teu rosto. escavava a solidão. descartando uma lágrima. de despedida.

não partas. amor. também já amei. a infância da noite. em ilhas. longínquas.

a lua rosada. ilumina a varanda. amor.

és a mulher. que povoa de azul. os cumes desolados.

não partas. amor. ofereço-me à tempestade. aos trovões.

a roupa. os cabelos desfeitos. no dossel da tua cama. são a ilha.
corre os cortinados. amor.



*


(imagem de barbara cole)

06/08/09



demasiado tarde‏

é demasiado tarde. e a tua ausência. rouba-me as palavras.
há um estranho silêncio. nas horas. em que vais. ao terraço. curar a melancolia dos domingos. entregas ao vento. o teu rosto fechado. queres habituar-te à ausência do amor. e esqueces. que a seguir à morte da saudade. renascem os cheiros. é na pele. que a memória nos atraiçoa.


*


(imagem de sweetcharade)

03/08/09




fértil mulher‏

quando de manhã. a sombra que me acompanha. se esgueira. pelos montes.

adivinho. pela inclinação do sol. que as árvores. queimam o ar. e as flores morrem.

é de manhã. nas horas quietas. que o orvalho. é pó. ou semente.

e as suaves. carícias do vento. largam os andrajos.

chegas. enrolada. em mantas. e no redil dos animais. costuras o tempo.

vem do húmus. a gravidez da terra.

vem dos teus braços. caídos. o cheiro a feno.

se em ti um corajoso. veio de água. percorre o teu corpo.

é no celeiro. que fortaleces. a tua pele.

fértil mulher. da sagração dos trigais.

vens de manhã. sem adornos. e corres.

com os lábios gretados. e cabelos desmantelados.

é de manhã. quando a inesperada. aurora. franqueia. os caminhos.

e no campo. o começo. é tudo ausência. silêncio.

que te deitas. alheia a tudo. o que move.

e deitada sobre a erva molhada.

és o fruto que acorda. e em gomos.

trinco-te. docemente.


*


(imagem de sweetcharade)

30/07/09

reinos

a vastidão do mar. o musical crepitar das ondas. as brancas pestanas. de uma nuvem que passa. a nudez cintilante. dos rochedos. durante o dia. é do mar. do céu. da areia dourada. que fundo o meu reino. quando anoitece. é com as mãos que te vejo. entre pântanos de névoa. cheiras a campo. a lavanda. as tuas mãos. passeiam na lembrança. como novos remadores. de caravelas. o calor do teu corpo. incendeia-me. no meu peito. os teus lábios. são a curva de um rio. tranquilo. os teus olhos. o refúgio luminoso. da torre do farol. e o vento canta. há uma guitarra que chora. porque não vens à janela? porque não escutas. esta serenata. que te chama?


*


(imagem de steven hanks)

29/07/09

praia de vento


na praia

os ventos ferem

os olhos

e os veleiros

entornam sobre a esteira do mar

amargas nostalgias.

oiço o assobio

da nortada na tua vidraça

donde me observas.

uma folha perdida

trepida

nos teus olhos

como um pássaro exilado.

um alto guindaste ergue-se

nas trevas.

e eu quero morrer

depois de um passeio

pela beira mar

nestes dias

em que o vento

cega

o horizonte.

procuro na maré

indómita

uma vaga mais calma

igual à carícia

que certa noite

me ofertaste

entre espuma e suores.

talvez ainda vá a tempo

de cancelar a morte.

talvez.

se o tempo

em que me adio

trouxer o teu corpo

o teu sabor.

minha boca

carregada de mel.


*


(imagem de desconhecido)

17/06/09


mar de silvas


vem

chamo-te

deste penhasco árido

em que as lágrimas

embrutecem

e a paisagem

é um mar

de silvas.

vem.

antes que

o poente

descarrile

num outeiro de sombras.

e o teu sorriso

encerre

o primeiro

olhar



*


(imagem de deviantart)

16/06/09


abrir uma carta


tenho a mão cansada
doem-me
as pálpebras
e meu corpo
é um porão
vazio.
nos teus olhos
onde o mar
é mais sereno
ninguém usurpa
o silêncio.
estarão neles
a salvação?
quem sabe?
ou então
nesse sorriso
que se deita
mansamente
sobre este poema
e deixa
uma silhueta
de anjo.
as palavras passam
por nós
como inúteis
turistas.
queria tanto
ir à Ópera.
encontrar-te
nas escadarias
sentir a Cármen
dilacerada
pelo amor.
correr
saltar
atravessar
o riacho.
e quando o sossego
voltasse
a dar-me
mão.
abrir uma carta
e ler o teu
sorriso
a olhar

para mim.


*


(imagem de deviantart)

15/06/09

poeira que ri


pousavas a mão. na incrédula sombra. que em teus joelhos.

girava. enquanto. eu. preso à imobilidade das horas. lia poemas.

e olhava-te nos olhos. um deserto branco. alastrava. no teu

rosto. nenhuma palavra. acendia. um rubor. um sorriso.

pobres versos.que contra a melancólica luz da tarde nada.

podem.
fossem eles. os poemas. aquela promessa de felicidade.


que a
noite. elabora. em amados enganos. de ocasião. e tudo
era

desigual. a poesia. amealhava. glórias e etílicos arrebatamentos.

mas o poeta. que não imagina. a que horas o leitor. canta. e diz

em alta voz. seus versos. intemporais. um dia saberá. que à

tarde. o poema deve ser. conservado. higiénicamente.

porque. lida ao vento. do entardecer.

a poesia. é poeira que ri.



*

(imagem de andrea b)

11/06/09

da carícia ausente


pela memória

ainda passam

as tuas mãos.

agora

quando abro

os punhos

uma certa

aridez

torna mais

frio

o tacto.

da carícia

ausente

canta o mar

que já não

se exprime

como outrora.

quando

a ondulação

eram

pálpebras

azuis

e os corais

ilhas de vidro

onde

habitavam

os nossos

beijos.


*


(imagem de mariah)

28/05/09

procura da poesia


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objecto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda húmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Carlos Drummond de Andrade
*
(imagem pedro noel la luz)

15/05/09

vaga fria

alças o olhar

no promontório

mais perto

do meu corpo.

e nunca te vejo.

penso:

a voz que passa

na vazante

é a tua.

pertencem-te

todos os instantes

em que o mar

entra pela escrita

e deixa uma

vaga fria.

escrevo

para o porto

de mar

em que te exilas

e nenhum barco

parte do teu silêncio.


no entanto

um sorriso

o teu

que balança triste

em encrespados sonhos

e que chega até mim

por uma enseada

de águas

brandas



*




(imagem de deviantart)

11/05/09

em fúria


acostumada

a esconder-se

na sombra

de um corpo

que não é o seu

oculta a túnica branca

e engendra

armadilhas

que explodem

na falsa inocência dos predadores.

é mulher

ou esfinge?

pássaro branco

em fuga?

há horas

em que os sentimentos

incomodam

e nem a quieta perfeição

das rosas

timbra

a pele dos amantes.

quem já se gastou

em amores

funestos

expõe a crueza

do prazer

no corpo a corpo

sem memória

nem glória.

o sexo na vitrina

torna mais suportável

os dias.

na ausência

de um amor

o sexo

paginado

escancarado

fustiga

ternuras

e brisas

em lances

de bocas

e membros

em fúria.



*



(imagem de deviantart)

05/05/09




incógnita maresia


incógnita maresia
que entras desprevenida
pelos os anéis do forte.
és preguiça de mar
ou promessa de vida?
vens deitada
num estilete de coral
e o teu cheiro
cola-se ao corpo
do solitário navegante.
abraça-me
amada maresia
cheira-me com o teu cheiro
beija-me
sacia-me
com tua roda de inebriantes
fragrâncias.
no areal
as gaivotas voam
rente aos meus olhos
e tu maresia
continuas incógnita.
anda.
despe esse manto salgado
onde te escondes
salta os penedos
em que danças
vem.
destrona-me
na duna mais próxima do mar
e ingressa na minha pele
no meu sexo.
sou o teu amante
maresia
que se estira na margem
o último
dos famintos.




*

(imagem autor desconhecido)




29/04/09

vinte e três


eras a página 23. deitada em caracteres romanos. gosto de andar nua. em letras antigas. confessaste. no primeiro parágrafo.
antes ainda de eu concluir. o enredo. foi então. que no branco da página. te despiste. as tuas ancas. eram acentos. circunflexo.
e os teus mamilos. chapéus de mandarim. passeando pelas margens. de um rio mandrião. apagavas frases. com lenços da índia.
e eu enxugava o meu suor. à tua pele. seriam de papiro os teus ombros? pedi-te que descesses. queria que perfumasses a página.
detesto o cheiro a papel pardo. o teu corpo. era toda a página 23. os teus flancos não era um mata-borrão. nem pontos finais. os teus poros.
olhavas-me. languidamente. do alto das interrogações. e eu beijava-te. em sucessivos travessões. nomeei-te guia. da 23.
e teimei em não sair daquela página. sabia que ao permaneceres. ali. deitada. como os teus olhos em itálico. e os lábios em requebro
rosáceo. o romance que naquela altura. não passava de um ligeiro esgar. estava concluído. bastava só. esticar-me. nos teus cabelos.
e chamar 23. ao nosso primeiro orgasmo. escrito em letras romanas.






*





(imagem de erlandpil)

23/04/09

sorriso nu


ando descalço. pelo teu sorriso nu. e leio um escondido alerta nos teus olhos: no meu sorriso. passeia. invisível. um príncipe voador. o chão do meu riso. não tem rugas. dizes. e eu procuro-te. descalço. e sinto que não ando. vagueio. há sim. no teu sorriso. um chamamento marítimo. por isso embarco. e alcanço alvas margens. areia enrolada numa luz matutina. por isso. se diz. que o teu sorriso é uma manhã mais clara. que todas as manhãs de primavera. entro nela. mesmo de noite. quando o silêncio. se debruça no leito. e na lembrança. a manhã do teu sorriso. chega com a aragem tépida do anoitecer. e eu lavo-me. no teu sorriso. dispo-me nele. e tu. sem notares. sorris. como sempre. sem saberes. que ando descalço no teu sorriso nu. e de tanto. percorrer o teu sorriso. já o habito. e beijo-o. e amo-o. no teu sorriso nu. já há uma prega do meu sorriso. acontece. aos sorrisos. que nos chamam. e nos perdoam. acontece que o teu sorriso. é um pórtico. de um paraíso desconhecido. um arco de luz. nos negros dias. da tristeza.


*

19/04/09

noivar

não era domingo. mas eles noivaram na sombra de um quarto silencioso. pela fina rede de malha cingida. uma pomba voou. e voaram carícias. beijos. abraços numa coreografia. perfumada. ela preparou-se para o noivado. com rendas e espartilhos de seda. vinha. armada. e ensaboada. para a batalha. mas foi largando. as armas. uma a uma. até que a nudez. suou. e com o corpo. assim. abandonado. no campo de linho. houve música. cantaram os olhos. e os lábios. entoaram um coro intimo. caíram romãs e morangos nos rostos de ambos. as flores. eram esterlicías. estavam em pleno festim. os amantes. sem convidados. nem palavras e sacramentos. uma pagã liturgia apoderou-se dos corpos. e pelas ranhura das paredes. o vento enrolava. amores perfeitos. secretamente oficioso.
religiosamente pagão. aquele noivado.


*



(imagem de grendel)

13/04/09

bizarra flor


sei de uma flor que se agarra á chuva e chora.
uma flor de pétalas arroxeadas.
que se comove. e ama. presa
ao caule encarquilhado das árvores
mutiladas.
quando a chuva. cai. em cordas
sucessivas. a flor amotina-se.
e ergue o perfume. como uma espada
de gume flagrante.
esta rara. flor. em dias de sol. abundante.
despetala-se em carícias. e beijos perfumadas.
dizem os botânicos. que esta espécie.
sofre de uma estranha parónia.
uma flor. quase mulher. que no canteiro mais sombrio
do jardim. vai perfumando as pétalas. alisando-os.
em prolongadas horas.
e mal o sol desponta.
ela. toda solicita. distribui pétalas. a amantes desavindos.
eles. os amantes. escrevem cartas de amor. testemunhos
de reconciliação. sonhos perfumados. em vegetais cartas.
nos dias de primavera.


*

02/04/09



caminha


caminha. meu amor. pela indízivel sinfonia das aves nocturnas. ouve os meus passos. eles são o rouco meditar da solidão. procura-me. entre as húmidas giestas. do amanhecer. abraça-me. as estrelas que nos guiam. desertaram. e só nos resta. esse escuro canavial. onde tantas vezes. os teus olhos me levaram. apenas por um beijo. ou por um arrepio de ternura. na cidade. tu sabes. a conjura dos fariseus. faz de nós. estranhos viajantes. perdemos o olhar. e aquela desmedida vontade. de girarmos no pião da infância. a ponte levadiça. é uma barreira imposta. pelos que teimam. em proibir que os nossos corpos. sejam barcos ou poemas. com que partimos rumo ao que não vem contado. nas páginas dos jornais. somos notícia. do amor ausente. no açude. distante. o teu sorriso. é um veleiro encalhado nas minhas lágrimas. e os meus olhos. breves alusões. ao beijo. que nos roubaram. na alfândega.


*


(imagem de deviantart)

26/03/09




eram lágrimas


Eram lágrimas. só podiam ser lágrimas. o que o corpo pedia. nessas noites. que nunca mais acabam.
debaixo de lençóis magoados. e travesseiros doídos. um corpo sem domínio de si. resvalando pela escuridão.
como trapos entre os rochedos. o que dói num corpo assim tão desorientado?
uma ferida que não se vê? uma dor que não mente? um abismo de sombras e tonturas que não se detém?
corpo que se queixa e não chora. corpo parado. corpo impotente. corpo falido.
eram lágrimas. só podiam ser lágrimas.
o que o corpo pedia. nessas noites.
que nunca mais acabam.


*


(imagem de erlandpil)

25/03/09



Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...


(Fernando Pessoa)

21/03/09


dia mundial da poesia



Foi para ti que criei as rosas

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.


Poema de Eugénio de Andrade


*

19/03/09


forro do poema

no forro do poema

os indícios da memória

removem as cinzas

do medo.

quem aí

chega e dentro

do poema

caminha desprevenido

há-de encontrar

um prado

ou um poente.

não se escreve

um verso

em chão de tijolo burro.


*

(imagem de fernando figueiredo)












18/03/09


ao fim do dia

se acabássemos o dia juntos
no exacto instante
em que o sol finda
o seu labor
o perfume
do teu corpo
podia descansar.
e as minhas
mãos cansadas
de remexer
no húmus da palavra
pedissem
enfim
um acorde
de violino
a noite
que nos aguarda
dava-nos
a voz silenciosa
para que juntos
rumássemos
ao monte
e embrulhados
ao calor ainda intacto
das ervas
trincávamos
a maçã
que sobrou
do almoço.



*



(imagem de deviantart)

16/03/09


fogo itálico


regressa. não tenhas medo. o chão está atapetado de camélias. e os poentes são demorados. podes chegar. às avessas. prolongando o tempo de cada carícia. volta. o corredor está encerado. pelo rasto do teu último olhar. e à janela os pássaros. amotinam-se. vem. o cheiro do teu corpo. encaderneio-o. para o diada festa. quero abrir cada grito teu. com o fogo escrito. em itálico. na pele.


*


(imagem de mariah)





em prosa serena

também acredito. que a prosa é serena. como os teus lábios. escorre mansamente. as palavras chamam-me. com a mesma lentidão. das tardes de estio. em que passas devagar. pela orla. a prosa. conta-nos. em longos capítulos. a impossibilidade do nosso encontro. leio-te ao longe. invento-te noutro país. e o corpo de mulher que anda pela praia deserta. até pode ser o teu. mas é na ficção. na prosa serena. que ele habita. os romances escrevem-se. para dar nome. ao que não possuímos. se agora te chamasse. neste preciso momento. em que na página vinte e cinco. a mulher se lamenta. dos infortúnios do amor. tu vinhas ter comigo. entrando a chorar entre dois pontos. para me beijares. isso só acontece nos romances. na prosa. serena. como lhe chamas. se eu te lesse em poesia. cada verso que te escrevesse. morria nos teus olhos. e em silêncio te despedias. estás sempre mais longe. no poema.
amas. em prosa serena. ponto final.


*

13/03/09

diz-me, cantando

conta-me o que o teu corpo segreda. diz-me a cantar. quantas vezes a tua pele foi timbre de morna. uma fuga de bach. ou uma roda de samba?
se viesses. e me contasses cantando. o que é a tristeza ou a alegria. o teu olhar. serena melodia. dançava. numa flor de esteva. e eu. passaria por ti. numa canção. que inaugurasse a primavera. cada folha que acariciasse. no teu corpo havia de cantar. cada flor que arrancasse. no teu rosto. havia de corar. e fundindo. nossos rubores. um orquestrado refrão. abalava. o tempo. num musical beijo.


*


(imagem de deviantart)